Sobre a neutralidade na ciência
Até hoje, busca-se sem saber esse ideal. O sujeito (cientista) não pode estar envolvido com o objeto de estudo. Nas ciências naturais, é aparentemente razoável buscar isso. Num fenômeno natural, a queda livre de um corpo é a queda livre de um corpo, nada mais nem menos que isso. Não existiria viés ideológico em fatos naturais.
Essa idéia estendeu-se aos chamados fatos sociais: como dizia Durkheim, um dos papas da sociologia, os “fatos sociais devem ser vistos como coisas”. Weber, outro papa da sociologia, também propunha a neutralidade axiológica nas ciências sociais. A busca da verdade exigia esse posicionamento, dentro da mentalidade positivista de finais do século XIX. Os dizeres de nossa bandeira – “ordem e progresso” – não é nada mais do que um lema positivista.
Mas como, em uma ciência social, que trata de pessoas, sendo que o cientista também é uma pessoa que vive em sociedade, é possível manter o objeto (pessoas, sociedade) separado do sujeito (cientista)? Livrar-se de nossas ideologias por completo é difícil. Podemos tentar ser imparciais ao máximo, mas será que conseguimos? Mesmo nas ciências naturais, esse ideal é difícil de ser alcançado. Historiadores da ciência dizem que o sistema heliocêntrico proposto por Galileu não era consistente: o sistema antigo, com a Terra no centro, era muito mais elaborado. Contudo, num contexto de Renascimento e antropocentrismo, em oposição à teologia medieval, os cientistas estavam muito propensos a acreditar em Galileu. Assim, Galileu havia “provado” que o Sol estava no centro. As evidências mais claras só vieram à tona posteriormente.
Livrar-se de nossas convicções apenas na hora da investigação científica é complicado demais. Quando escolhemos o que estudar e o que pretendemos provar, a ideologia já está presente no caso das ciências ditas sociais. Entretanto, não podemos deixar de tentar ser neutros. Embora a neutralidade axiológica seja impossível, não tentar alcançá-la é obscurantismo medieval: cegado por ideologias, buscamos apenas provar nossas concepções sem maior criticidade. Não se ouve os outros, afinal são uns liberais reacionários ou esquerdistas populistas (por exemplo). Se não podemos deixar de ser o que somos, ao menos preservemos honestidade intelectual e deixemo-nos sempre um espaço para a dúvida: a maior das burrices é a certeza absoluta.
Se bem que na busca de um sentido em nossa vida, certeza era tudo o que precisávamos...

4 Comments:
Parabéns pelo texto.
Acho que a neutralidade axiológica realmente é uma utopia, mas devemos com toda a certeza ampliar nosso campo de visão e não estarmos presos a uma idéia fixa ou nossas próprias crenças.
Abraços.
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Phillipe, at 5/04/2007 05:05:00 AM
Este comentário foi removido pelo autor.
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Claudia, at 7/10/2008 11:51:00 AM
Olá, sou comentarista de primeira passagem por aqui
Achei ótimo o texto, muito bem colocado: "a maior das burrices é a certeza absoluta"
Como bióloga, sei o quanto é dificil ter de ultrapassar convicções, as vezes cientificas ou mesmo empiricas, a fim de obter um resultado transparente.
O cientista surpreende-se e não encontra explicações para um eventual resultado que varie do esperado, por estar fechado em suas convicções.
O pesquisador pode sugerir, jamais prever, ou então pode acabar surpreendido demais para compreender.
Parabéns, bom tema, ótimo texto
Abraços
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Claudia, at 7/10/2008 11:55:00 AM
Olá, Cláudia.
Seja bem-vinda ao meu antigo blog - é engraçado ler velhos textos escritos por si próprio. Tenho outro agora e serás bem-vinda (oikomania.blogspot.com), embora eu acabe falando mais de Economia do que de qualquer outra coisa.
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Thomas H. Kang, at 7/10/2008 12:04:00 PM
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